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Terra sem coronéis

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Pela lei criada por homens de terno, gravata e diploma de bacharel, o sobrenome é o instrumento que auxilia na sucessão de bens entre pais e filhos. Muitas vezes também passa influência e poder entre gerações. Mas na pequena região de Três Picos, em Campo do Coelho, na Zona Rual de Nova Friburgo, é o nome próprio ou apelido dos pais que as gerações vão carregando uma após a outra. Assim, Zé, filho de Ziza, é chamado de Zé de Ziza. Arlete, filha de Zé, é chamada de Arlete de Zé. 

A passagem do nome próprio serve como metáfora para a forma de vida dos habitantes da região. No local, restam apenas duas grandes fazendas, dessas que transformam os donos em coronéis desde a colonização do país. Hoje, quase a totalidade da produção de hortaliças que move a economia do lugar é feita por pequenos núcleos familiares que plantam e colhem em suas próprias terras. A mão de obra é composta por pais, filhos e primos. Não importa se mulheres ou homens. Todos tiram da terra com as próprias mãos o que ela pode dar.

Ao fim de uma geração, a seguinte fica com a pequena propriedade de terra e cuida dela da mesma maneira que a anterior. Pouquíssima é a automação da produção. Como o nome que se perpetua entre pais e filhos, o modo de vida segue o mesmo.

Na maioria das casas, não há luxo, mas tudo é organizado e bem cuidado, dando sinais de que o dinheiro circula na região e de que não falta para deixar as paredes de um branco limpo, as salas bem equipadas e as cozinhas fartas. Mas não há recursos, tampouco ganância, para comprar as terras dos vizinhos, alargar a própria cerca e contratar funcionários. Os que não querem mais viver da terra, vendem para gente de fora ou primos e irmãos dos habitantes, que desejam começar sua própria produção.

Uma unidade do Ceasa auxilia em boa parte do escoamento dos produtos de Campo do Coelho. O antropólogo Bruno Mibielli, que pesquisa há cerca de três anos a cadeia de alimentos na região para sua tese de doutorado pela Universidade Federal Fluminese (UFF) explica que a rede muitas vezes é complexa
e envolve até cinco etapas bem divididas. 

“Os alimentos são produzidos pelos produtores. Depois, os “panhadores” como eles chamam, buscam as hortaliças nas chácaras e levam em pequenos veículos para os atravessadores. Estes fazem o transporte para os comerciantes, que vendem ao consumidor final”.

É claro que nem tudo é perfeita harmonia, há embates entre ambientalistas e produtores para dosar o uso de agrotóxicos, há mortes em sequência pelo uso irresponsável de motos, muitas vezes em alta velocidade, com abuso de álcool e sem equipamentos de proteção. Mas em muitos aspectos Campo do Coelho parece um ensaio do que poderia ser o Brasil se a terra fosse distribuída em porções menores.